Mariana Albanese

Cabinhas de conteúdo

In Pessoas on Segunda-feira, 1 f, 08 at 12:18 am

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A primeira vez que entrevistei o Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande, foi em 2006, para o Almanaque Brasil. Era uma daquelas clássicas entrevistonas, com várias pessoas na sala que dividiam conceitos parecidos. Falávamos das oportunidades no sertão e alguém perguntou: “e existe muito êxodo rural por lá?”.
A resposta merece um parágrafo à parte: “Olha, migração é coisa que só existe pra pobre. Por exemplo, se Bill Gates viesse morar no Brasil, não existiria migração. Existiria? Vem Chico Anísio morar em São Paulo. É migração? É êxodo? Não é. O êxodo acontece desde que a pessoa seja uma pessoa vazia, uma pessoa que não tenha conteúdo. Muitas vezes a pessoa do sul tem preconceito com a pessoa do interior, da mesma forma que o americano tem preconceito com o brasileiro que vai morar lá. Mas quando a gente tem conteúdo, quando a gente faz a diferença, não existe êxodo”.

Pois bem. Dias atrás acompanhei uma das bandas da Fundação, Os Cabinha, na gravação do programa Tudo é Possível, apresentado pela Eliana, na Record.
Cheguei um pouco mais cedo do que eles, e me apresentei como assessora de imprensa. A produtora, simpática, me indicou o estúdio e disse que eu poderia aguardar no camarim. Fiquei meio perdida por lá, olhando o movimento, já que não havia lugar para sentar no tal espaço que imaginei ser camarim. Era uma saleta, no final do corredor paralelo ao estúdio onde começava a gravação. Um entra e sai de gente me deixou tonta. Naquele momento, um assistente explicava a participantes da platéia como seria o quadro de calouros com crianças, que se espalhavam barulhentamente pelo tal corredor. Elas cantariam, e se fossem gongadas, um dos pseudo-voluntários da platéia, que já estava bem avisado embaixo de um chuveiro, levaria água na cabeça.
E assim, mães tentavam arrumar os pequenos que buscavam seu espaço para ser a nova Maísa, fantasiados de gente grande e ansiosos pelo momento em que ficariam famosos.

Cansada de tanto fuzuê, constantemente perguntava aos seguranças se Os Cabinha havia chegado. “Quem?”, “é um grupo de cinco crianças”. “Ah, tem criança demais aí, vê se eles não estão espalhados”.
Senti um certo vazio. A van atrasou. Entre negociações para pegar os meninos que esperavam no hotel, a produtora me indicou o verdadeiro camarim, no andar de cima. Nele, uma plaquinha estampava um “Sejam bem-vindos, Os Cabinha”. Na mesa, oito kits de lanches e refrigerantes aguardavam para ser devorados pelos pequenos sedentos, que chegaram lá com quase quatro horas de atraso.

Não havia mais crianças no corredor. Era a vez das atrações principais gravarem. No camarim ao lado, um cara musculoso de gel no cabelo me pareceu familiar. Quando perguntei à segurança quem era, tive que ouvir: “mas seu conhecimento musical é fraco, hein? É o Xande, marido da Carla Perez”.
Recuperada da minha ignorância musical, levei os meninos para o estúdio. Enquanto esperavam para entrar, se ocuparam em assistir pelo monitor o jogo no palco. Era um duelo entre o Harmonia do Samba, do tal Xande, e uns outros rapazes bem-vestidos que descobri se chamarem Inimigos da HP.
As crianças estavam de olho na tevê como se estivessem acompanhando de casa. Roíam as unhas e viravam imediatamente para perguntar ao diretor, que por um ponto eletrônico dava dicas para a Eliana, se a resposta estava correta. Definitivamente, não estavam esperando para entrar em um dos programas de maior audiência.
Após o vocalista da Inimigos imitar macaco no palco, foi a vez de Os Cabinha entrar. Não sem antes ouvirem do rapaz, muito bem humorado: “crianças, estudem! Assim não precisarão passar por essas situações!”.

No palco, os meninos se decepcionaram um pouco: tiveram que fazer uma versão dublada de Tio Gordão. Haviam ensaiado três músicas próprias, e acabaram fazendo uma do Charlie Brown Jr. Mas nada que ofuscasse o orgulho e estarem lá.
Do alto de seus 10, 12 anos, eles ainda não refletem muito sobre as teses do Alemberg. Mas são a prova cabal do que ele nos disse naquela entrevista há dois anos: com conteúdo a gente entra pela porta dos fundos da Record. Afinal, os sete meninos (cinco da banda, uma cinegrafista de 12 anos e um produtor de 20) trazidos em um vôo de Juazeiro do Norte especialmente para mostrarem seu conteúdo na gravação do programa, não precisavam atravessar a emissora inteira rumo ao camarim exclusivo: a van os deixou na porta do estúdio.

Em tempo: o programa vai ao ar no domingo, dia 14 de dezembro.

O meu, o seu e o nosso texto

In Idéias on Sábado, 29 f, 08 at 3:05 am

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Se o copy-desk já existisse naquele tempo, os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”, disse o sábio Nelson Rodrigues que, definitivamente, não é lembrado por seu desapego ao texto.

No primeiro ano de faculdade, o que mais se faz é ler sobre jornalismo e jornalistas. Além do que os professores indicam, há uma certa voracidade em entender a profissão escolhida. E me lembro de ler muitas frases que davam a entender que jornalismo não é escolha, mas sina. Do tipo: “sofro, reclamo, mas gosto”. Mas uma, em especial, me chamou a atenção: “quando um jornalista quer se suicidar, ele se atira do próprio ego”.

Acredito que o jornalismo das antigas era feito de egos. Não do tipo inflado de hoje, pavão no aquário, mas de gente que acreditava demais em si e no trabalho que fazia. Por isso mesmo, tinha um texto próprio, com características peculiares. Ainda existe este tipo, não só os remanecentes de outrora, mas das novas caras. Cito dois, que por um tempo partilharam a mesma revista: Mino Carta e Bob Fernandes. De antes e de hoje.

Todo aluno de jornalismo tem pelo menos alguns ídolos para citar. Provavelmente, caras que ocupam (ou ocuparam) uma posição de respeito, ganham bem e escrevem bem. Mas, ao contrário de seus ídolos, eles repetem, e depois perpetuam, quando profissionais, a idéia de que texto não tem dono, e que achar ruim que sejam feitas alterações é puro ego. Jornalistas são carteiros de luxo, que gerenciam a informação para entregá-la ao destinatário-leitor.

Queria que alguém me entregasse para ler a história do grande fulano, famoso por ter seus textos reescritos, principalmente quando as informações eram polêmicas – ou pior, quando não vinham diretamente de aspas do entrevistado, mas sim da observação do repórter. Então, o famoso ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo seria contemplado por sua eficiência em não poder descrever o que viu, mas apenas frases literais.
Nessa, coitado do Gay Talese e seu Frank Sinatra resfriado! (E da centena de pessoas que ele entrevistou para fazer o perfil do bonitão e na qual ele não se inclui, já que, como diz o título, estava doente e nada afim de falar).
A Sangue Frio também seria um fracasso de vendas, e Truman Capote um sem noção.
Tanto quanto as reportagens do nosso brasileiríssimo Cláudio Abramo, que ensina A Regra do Jogo até hoje nos bancos da faculdade.

Sim, a informação precisa ser averiguada! Sim, ela é a estrela. Não, não sou eu a estrela dos meus textos. Meu ego dos antigos. Será um erro saber o que quero fazer? Sei escrever assim. Não escrevo comunicados de cemitério, não sei ser imparcial. Sou, no máximo, literal. Gosto de contar histórias.

Ouvi três coisas impactantes desde que comecei. A primeira, aos 17 anos, no jornal da escola, quando descobri que meu professor era apaixonado por uma amiga minha. Impressionado com o que consegui pegar no ar (já que ele não deu nenhum sinal concreto), ele me dizia: “Mariana Albanese, você vai ser uma grande jornalista”. Eu acreditei e estou nessa até hoje.
Porém, na faculdade, um outro professor foi categórico: “você é louca e vai virar pó em uma redação”. Para desgosto dele e felicidade geral da nação, mandei o texto criticado a uns 10 jornalistas profissionais. Nove disseram que ele tinha razão. O único a concordar comigo foi seu grande ídolo, Mino Carta.

Por fim, faz uns dois anos, tive problemas com a edição dos meus textos na revista em que trabalhava. Era um sujeito com fama de bom, que transformava minhas histórias em um ditado, com sua fixação por frases curtas. Eu achava seus textos horrorosos, e acabei me rebelando. Em uma conversa, argumentei que àquela altura uma das poucas coisas eu tinha era meu nome, e era por ele que eu queria zelar. Com a petulância de quem precisa mostrar que é alguém, ele riu e me perguntou: “que nome?”. Quem riu por último fui eu: além de tempos depois ele ter sido substituído na minha revista, no ano seguinte causou comoção ao assumir como editor de outra publicação bem importante: a redação inteira pediu demissão.

Continuo a escrever para a tal revista, e vai tudo bem, obrigado. Quando o texto está estranho, o editor me manda de volta. Arrumo. Devolvo, e só vou ver o final quando está publicado. Não tenho críticas a fazer.
Nesse caso, uma coisa me deixa aliviada: ele escreve bem. Deixaria que fosse meu ghost writer. A raiva, devo confessar, é de quando os que não entendem do babado querem brincar de editar.

Essas crianças de hoje..

In Pessoas on Sábado, 29 f, 08 at 2:04 am

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Conversava com um dos meus alunos enquanto andávamos na rua, indo para uma aula fora da escola, quando ele me confessou pegar “rabeira” em ônibus. Confessou é maneira polida de dizer: orgulhou-se em me contar.
Para não lhe passar um sermão, perguntei, na base da ironia: “com quantos anos você pretende morrer?”. Para minha surpresa, a resposta estava na ponta da língua: “aos 15″. Quis me informar então sobre quanto tempo faltava. Ele tem 12 anos. Ao constatar que só lhe faltariam mais três, mudou de idéia: “não, melhor dizendo, aos 27″.

E desandou a falar sobre o ídolo, Kurt Cobain, que morreu na mesma idade. Depois, vim a saber por intermédio de um amigo culto em datas de morte de roqueiros, que essa é uma idade meio crítica para o setor.
Mas, enfim, voltando ao menino e a seus amigos. A morte é algo muito presente na vida deles. Falam nisso o tempo inteiro. Querem matar fulano, sicrano e beltrano.
Exemplo disso foi a historinha que um grupo propôs para a aula de vídeo: um jogo em que todos morreriam. Queriam guardar segredo até o último segundo, e uma das meninas, da quinta série, só me revelou, animada: “só posso dizer que eu morro de overdose!”.
Durante os preparativos, porém, seus 11 anos falaram mais alto. Uma dúvida técnica na pré-produção a fez perguntar: “a gente sangra quando morre de overdose?”. A preocupação era porque como elas não tinham a menor idéia do que acontece com uma pessoa nesse estado, não sabiam se deveriam preparar o sangue cenográfico…
Mas, retornando ao papo constante sobre fins trágicos, sugeri, assim, meio como quem não quer nada, que há coisas piores do que desejar a morte de uma pessoa. Concordaram.

Assim como os fiz refletir sobre o barulho. Disse a eles, enquanto andavam pelas ruas da Vila Madalena falando para o raio de um quilômetro, que as pessoas mais ouvidas no mundo são as que precisam gritar menos. Quanto mais respeito nós temos por alguém, menos ela precisa se alterar para dizer o que pensa. Falei isso num tom bem ameno, enquanto perguntava se era assim que elas se portavam em um jantar. Prontamente uma das meninas fez questão de me provar duas coisas. A primeira, é que sabia se comportar à mesa, e a segunda é que no ambiente escolar eles agem como bichos porque são assim tratados.
Talvez por isso desejem tanto matar alguém.