A primeira vez que entrevistei o Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande, foi em 2006, para o Almanaque Brasil. Era uma daquelas clássicas entrevistonas, com várias pessoas na sala que dividiam conceitos parecidos. Falávamos das oportunidades no sertão e alguém perguntou: “e existe muito êxodo rural por lá?”.
A resposta merece um parágrafo à parte: “Olha, migração é coisa que só existe pra pobre. Por exemplo, se Bill Gates viesse morar no Brasil, não existiria migração. Existiria? Vem Chico Anísio morar em São Paulo. É migração? É êxodo? Não é. O êxodo acontece desde que a pessoa seja uma pessoa vazia, uma pessoa que não tenha conteúdo. Muitas vezes a pessoa do sul tem preconceito com a pessoa do interior, da mesma forma que o americano tem preconceito com o brasileiro que vai morar lá. Mas quando a gente tem conteúdo, quando a gente faz a diferença, não existe êxodo”.
Pois bem. Dias atrás acompanhei uma das bandas da Fundação, Os Cabinha, na gravação do programa Tudo é Possível, apresentado pela Eliana, na Record.
Cheguei um pouco mais cedo do que eles, e me apresentei como assessora de imprensa. A produtora, simpática, me indicou o estúdio e disse que eu poderia aguardar no camarim. Fiquei meio perdida por lá, olhando o movimento, já que não havia lugar para sentar no tal espaço que imaginei ser camarim. Era uma saleta, no final do corredor paralelo ao estúdio onde começava a gravação. Um entra e sai de gente me deixou tonta. Naquele momento, um assistente explicava a participantes da platéia como seria o quadro de calouros com crianças, que se espalhavam barulhentamente pelo tal corredor. Elas cantariam, e se fossem gongadas, um dos pseudo-voluntários da platéia, que já estava bem avisado embaixo de um chuveiro, levaria água na cabeça.
E assim, mães tentavam arrumar os pequenos que buscavam seu espaço para ser a nova Maísa, fantasiados de gente grande e ansiosos pelo momento em que ficariam famosos.
Cansada de tanto fuzuê, constantemente perguntava aos seguranças se Os Cabinha havia chegado. “Quem?”, “é um grupo de cinco crianças”. “Ah, tem criança demais aí, vê se eles não estão espalhados”.
Senti um certo vazio. A van atrasou. Entre negociações para pegar os meninos que esperavam no hotel, a produtora me indicou o verdadeiro camarim, no andar de cima. Nele, uma plaquinha estampava um “Sejam bem-vindos, Os Cabinha”. Na mesa, oito kits de lanches e refrigerantes aguardavam para ser devorados pelos pequenos sedentos, que chegaram lá com quase quatro horas de atraso.
Não havia mais crianças no corredor. Era a vez das atrações principais gravarem. No camarim ao lado, um cara musculoso de gel no cabelo me pareceu familiar. Quando perguntei à segurança quem era, tive que ouvir: “mas seu conhecimento musical é fraco, hein? É o Xande, marido da Carla Perez”.
Recuperada da minha ignorância musical, levei os meninos para o estúdio. Enquanto esperavam para entrar, se ocuparam em assistir pelo monitor o jogo no palco. Era um duelo entre o Harmonia do Samba, do tal Xande, e uns outros rapazes bem-vestidos que descobri se chamarem Inimigos da HP.
As crianças estavam de olho na tevê como se estivessem acompanhando de casa. Roíam as unhas e viravam imediatamente para perguntar ao diretor, que por um ponto eletrônico dava dicas para a Eliana, se a resposta estava correta. Definitivamente, não estavam esperando para entrar em um dos programas de maior audiência.
Após o vocalista da Inimigos imitar macaco no palco, foi a vez de Os Cabinha entrar. Não sem antes ouvirem do rapaz, muito bem humorado: “crianças, estudem! Assim não precisarão passar por essas situações!”.
No palco, os meninos se decepcionaram um pouco: tiveram que fazer uma versão dublada de Tio Gordão. Haviam ensaiado três músicas próprias, e acabaram fazendo uma do Charlie Brown Jr. Mas nada que ofuscasse o orgulho e estarem lá.
Do alto de seus 10, 12 anos, eles ainda não refletem muito sobre as teses do Alemberg. Mas são a prova cabal do que ele nos disse naquela entrevista há dois anos: com conteúdo a gente entra pela porta dos fundos da Record. Afinal, os sete meninos (cinco da banda, uma cinegrafista de 12 anos e um produtor de 20) trazidos em um vôo de Juazeiro do Norte especialmente para mostrarem seu conteúdo na gravação do programa, não precisavam atravessar a emissora inteira rumo ao camarim exclusivo: a van os deixou na porta do estúdio.
Em tempo: o programa vai ao ar no domingo, dia 14 de dezembro.


